Tu vai montar um museu?

As não-coisas da minha mãe; O vinil de Elis; Vale a pena brigar por objetos; A máquina de escrever; Segunda chamada; Pedro não volta

Certo dia olhei ao meu redor e percebi que não tinha nenhum objeto que tivesse pertencido à minha mãe.

Essa não é uma história trágica, pode ficar tranquilo. Na real, é um conto sobre objetos e memórias que desejo guardar ainda em vida. Veja bem, minha mãe está vivíssima, maravilhosa, com saúde e ainda cheia de sonhos a realizar. Mas já não moramos juntas há uns bons anos e, na minha casa, não há nada que já tenha pertencido a ela ou algo que remeta a uma boa lembrança de nós duas.

A minha casa, hoje, é repleta de memórias. Para cada canto que olho, lembro de algo bonito que aconteceu na minha trajetória. São lembranças de viagens, obras de artesãos, artes feitas por amigos, convites e mapas emoldurados, quadros que contam histórias, móveis comprados de segunda mão (em brechós ou desapegos de amigos), e tudo o que já investi meu dinheirinho (que conquistei trabalhando feito um jumento). Minha casa é tomada por significados.

A sala aqui de casa

Já minha mãe é o oposto. Não tem apego a nada material, não se importa com a estética das coisas, está mais atenta à funcionalidade e também a curtir os momentos em vez de registrá-los. Não gosta de fotos e está mais preocupada em ter uma casa limpa e organizada do que necessariamente bonita ou com lembranças. Ela dá, doa, joga fora, se livra das coisas com muita facilidade. Dela e dos outros, se deixar.

E daí que esses dias alguém em meu Instagram me pediu para que reunisse os objetos com os quais tenho mais apego em casa. Olhei para todos os lados e não vi nenhum que remetesse à minha mãe. Pelo menos não diretamente. E me frustrei.

Foi quando fui à casa de um tio em um domingo de família e revirando alguns LPs que encontrei por lá, vi vários clássicos da música brasileira. Entre eles, um da Elis Regina com fotos em preto e branco.

Perdi o ar ao olhar aquela imagem e gritei:

- Mainha! Mainha! Você viu isso? Olha esse vinil da Elis que coisa linda!!

Minha mãe é grande fã de Elis Regina. Reza a lenda que chorou como se tivesse perdido um ente familiar na morte da cantora

- Vi. Eu conheço esses discos. Eram meus.

Disse assim, como se estivesse falando de uma coisa qualquer. Como assim eram seus? Pois então são meus! E comecei a separar cada disco que eu levaria para casa. Era o momento em que eu teria os objetos com significados, lembranças, histórias e belezas a contar (e cantar) sobre a minha mãe. Eu só tinha clássicos, ela disse. Eu estou vendo. Chico, Gal, Caetano, Gil, Bethânia, estão todos aí. Seguirão comigo.

Meu tio, porém, interviu e disse que eu não poderia levar. Depois de muito insistir, falei que queria pelo menos um, o da Elis. Ele relutou, mas liberou. Peguei quatro. Na saída de fininho, ele percebeu e me disse querer ver quais eu estava levando. Eu disse que só podia levar um, esbravejou. Então, eu estou levando uns. Era um. Isso mesmo, uns. Levar na piada é nosso jeitinho. Peguei dois de Chico e dois de Elis. Mas queria pelo menos vinte.

As fotos são de Jacques Avadis

O olhar altivo de Elis nesse álbum me hipnotizou completamente. A luz refletida no paetê da blusa brilhava em meus olhos. A blusa, aliás, na verdade me parece um colete levemente transparente apenas preso com um alfinete. Fico pensando na criação e discussão que aconteceram até decidirem manter apenas o colete para a foto. Faz o seguinte, esquece essa blusa que está por baixo, deixa só o colete, pq ele tá refletindo uma luz incrível, deve ter dito o fotógrafo.

A mão repousada como num pliê, o queixo erguido, as pernas abertas e a espinha ereta. Na outra imagem, a cabeça baixa e penso que pode ter sido sem querer, mas que o fotógrafo pediu que ela ficasse naquela posição mais um pouco, pois fez uma sombra incrível. E de um lado a penumbra e do outro os rasgos de luz.

Uma amiga me disse que escolheram essa foto em algum lugar pra simbolizar que Elis era pisciana. Faz sentido pois pura emoção.

Imagina então descobrir que toda essa preciosidade, esse objeto com infinitos significados, estava em um cantinho de uma estante. Decidi, portanto, que esses discos são meus por direito. Ainda estou arquitetando o plano para trazê-los pra mim sem causar uma grande questão familiar. Mas, se tiver que causar, acho que vale a pena

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Na mesma semana, em um passeio pelo centro, encontrei um senhor que vende máquinas de escrever. Me animei, me emocionei, mas não pude comprar nenhuma. Tirei uma foto e mandei pra minha mãe. Segue o diálogo:

- Essa verde tem uma igual em Campos Belos (interior onde minha mãe nasceu)
- É tua ou alguém já engabelou?
- Era da mamãe. Do cartório
- Posso ficar?
- Ficar com máquina? É do seu tio.
- Não posso arrumar confusão com dois tios ao mesmo tempo… a não ser que ele queira me dar de presente

e ela:

eu ri.

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Adoraria, claro, montar um museu pra contar a história da família Luz. Mas não é esse o caso o fato de ter apego a certos objetos. Me perdoem os minimalistas, mas apego emocional é fundamental.

Eu não sei se é o fato de olhar ao redor e saber o esforço que foi comprar cada coisinha. Ou de como aquele imã bobo lembra dias divertidos em alguma viagem. Ou ainda da delicadeza que foi receber um presente embalado com carinho. Ou até as parcelas de cada móvel. O fato é que gosto de coisas!

Tentei já ser alguém que guardasse pouco. Mas a real é que tenho até hoje as sacolas de plástico da viagem à Disney com 13 anos. Ou as cartinhas que acompanham algum presente. Até os bilhetinhos passados em sala de aula só foram pro lixo há poucos meses. Coisas são importantes pra mim.

E sei que há muitas teorias de desapego. Sei que as memórias e os sentimentos existem independentes do objeto. Sei que se sentir valorizado a partir do poder de compra é coisa do capitalismo safado. Mas eu caio em tudo.

Te lasca, Marie Kondo.


O álbum “Elis” foi lançado em 1973, sendo o décimo primeiro álbum de estúdio dela. São dez faixas, sendo quatro compostas por Gilberto Gil e quatro por João Bosco & Aldir Blanc. Olha essa preciosidade!!

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Pesquisando, encontrei essa análise do álbum que elege este o como “um dos melhores (senão o melhor!) disco de carreira da cantora”. E comenta uma curiosidade: a música “Folhas Secas” (do vídeo acima) rendeu uma treta entre a Elis e a Beth Carvalho. A sambista recusou a música, mas não gostou nem um pouco da pequena notável tê-la gravado.


Pra quem for de Fortaleza, a loja que tem as máquinas de escrever é essa (e eu estou torcendo muito para que ninguém compre a que eu gostei e eu possa, em breve, adquirir).

Se forem lá, vocês me marcam no insta?

Alguns links de coisas legais (clica na linha sublinhada)

Como assim????

Uma breve conversa com Natália Timerman, psicanalista e autora de Um Copo Vazio, após eu publicar que estava lendo o livro e com ódio do Pedro, um dos protagonistas, pois ele some e não se sabe o motivo...

Eu que lute


Passando o chapéu pra quem quiser apoiar esse trabalho independente de uma jornalista em crise existencial: meu pix gabidourado@gmail.com (também pode me mandar um e-mail pra gente papear)


té mais

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