Eu quero andar distraída

Eu não quero mais dicas. Um tweet genial. Um conto da Clarice. A conversa entre Ronaldo e Emicida. São Jorge me empresta o...

Atenção plena, várias formas de render mais no trabalho, aprenda a gerenciar o tempo, mil e uma técnicas para crescer e se tornar um sucesso. A internet tá rodeada de fórmulas de como fazer a gente ser mais e mais produtivo, trabalhar mais e mais, gerar mais e mais conteúdo, saber onde aplicar o dinheiro, ganhar não sei quanto até não sei quantos anos, formas de cuidar das plantas em casa que agora não pode mais ser só um pezinho de pimenta tem que ser uma urban jungle sendo que ninguém fala o quanto dá trabalho cuidar dessa ruma de planta e que você tem que ter húmus de minhoca em casa e tirar do lugar pra aguar e mesmo assim pegam uma praga e morrem.

E aí veio um tweet que resumiu toda a vida de quem, assim como eu, está sufocado com essa quantidade de fórmulas. Ei-lo:

Desprodução de conteúdo! Gênio. Era só isso que a gente precisava. Queria trabalhar em como fazer você não ganhar mais nenhum seguidor, como não postar stories nenhum dia, quais aplicativos você não precisa baixar, filtros que você não precisa colocar na sua foto, 3 passos pra você não dar passo nenhum ficar parado aí mesmo ande não que tá calor demais. Dicas de como não dar nenhuma dica. Não aguento mais dicas. Eu não pedi tanta dica. Eu não quero dica de mais nada!

As redes sociais estão tomadas, entupidas, lotadas de fórmulas de performance, de alcance, de engajamento e quando você vê está rodeada por listas, métricas, metas e esquecendo de olhar a vista. Existe um conto da Clarice Lispector que me acompanha desde adolescente, quando abri um livro dela na estante da minha mãe em uma página aleatória e dei de cara com ele. Se chama “Por Não Estarem Distraídos”:

Por muito tempo levei comigo esse conto ao pensar em relacionamentos e casamentos, de quando a gente tenta dar nome ao sentimento e acaba perdendo as sutilezas das relações. Sempre que um namoro começava a perder o fôlego, eu lembrava dessas palavras. “Porque quiseram ser, eles que eram” é a frase mais forte que me toca quando leio e releio esse texto.

Mas eu pensava em namorados que quiseram ser casados. Pensava em amantes que quiseram ser namorados. Pensava em paixões tórridas que quiseram ser romances doces. Pensava em amores que queriam ser os amores que já eram. Hoje, nessa minha atual fase, quiser ser o que se já é ganhou outra conotação.

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Penso nessa profusão de fórmulas para se transformar em alguém que a rede social aceita e divulga. Nessa quantidade de metas e listas e técnicas pra que você alcance a sua melhor performance. Nos contadores de tempo, nos planners, nas agendas pra que se anote tudo o que fará durante o dia, tendo até o respiro o devido tempo cronometrado. Penso nos magos, mestres, treinadores, coachs de vida que passaram a traçar como devemos escrever a nossa trajetória.

Nos likes, comentários, compartilhamentos e demais indicadores de que só assim você tem valor e, pra isso, a sua foto deve ser a melhor, mais bem editada, no melhor ângulo. E até a sua vulnerabilidade, aquela que você guardava em um lugar seguro e só compartilhava com quem merecia a sua confiança, virou commodity. Penso nos dados, nos números, nas métricas que se transformou a nossa vida. E que até o relaxamento, o autoconhecimento, o autocuidado, o respiro virou mais uma missão pra se dar um check.

E aí lembro da Clarice. E penso, em que momento nos permitiremos ficar distraídos? Será que enquanto estamos tentando provar ser o que já somos, deixamos passar a levíssima embriaguez da vida?

Haverá espaço para ficar distraídos em meio a tantas dicas de “como fazer” as coisas? E o cerimonial das palavras desarcetadas, que por tanto tempo associei a casamento (e talvez fosse sobre isso que Clarice falava), não pode ser aquele post em formato carrossel com várias receitas prontas sobre como você deveria viver a vida?

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Não há espaço para a distração. Não há espaço para o tédio. Não há espaço para a contemplação. O que há é cobrança insana e insalubre de produção, de conteúdo, de publicação, de métricas, de fórmulas, de patrimônio… uma lista sem fim. E nessa, parafraseando Lispector, quanto mais erramos, mais com aspereza queremos, sem um sorriso (mas com filtro).

Por isso eu quero andar distraída por aí. Pra dar espaço pro inesperado, pra ser surpreendida pelo desconhecido, pra poder olhar pra frente sem precisar olhar pro chão onde estou pisando, pra quem sabe até cair e poder rir do imprevisto, pra conhecer o imprevisível, o incalculado e o extraordinário, pra quem sabe meu telefone tocar, pra carta chegar, pra vida correr solta.

Pra, enfim, viver.

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Para ler e ouvir distraidamente


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